“Por isso, foi que também Jesus, para santificar o povo, pelo seu próprio sangue, sofreu fora da porta” (Hb 13:12).

Estas palavras foram dirigidas originalmente aos cristãos judeus para quem o significado de Jesus Cristo e Seu sacrifício na cruz não haviam ficado muito claro. Elas vinham para fortalecer a fé deles e esclarecer o que significava acreditar em Jesus em sua particular situação sócio-religiosa. Eram do povo escolhido por Deus, viviam sob a Lei e rituais cerimonialísticos. Com a vinda de Cristo, houve uma interpretação diferente da Lei e dos cerimoniais.

Durante toda a epístola, Jesus é descrito como o filho de Deus, um novo Moisés (e maior), o grande sumo sacerdote, o mediador de uma nova Aliança, o autor e o consumador da fé, esse quem é perpetuamente o mesmo: o salvador fie, e o grande pastor das ovelhas. Nesse versículo, em especial, Ele é descrito como homem de Deus que morreu fora da porta da cidade santa.

Pela providência de Deus, estas palavras no livro aos Hebreus nos foram estendidas, apesar de vivermos cultural, geográfica, religiosa e cronologicamente distantes de seus destinatários originais.

Um novo local de Salvação

A morte de Jesus fora da porta indica um novo local de salvação. No Antigo Testamento, o templo, que tinha substituído o Tabernáculo, foi compreendido não apenas como um lugar de adoração, mas principalmente como o local central da salvação.

No templo, os sacrifícios eram oferecidos regularmente pelo sacerdote para a expiação pelo pecado do povo. Uma vez no ano o sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos, o símbolo maior da presença de Deus e aspergia o sangue de um carneiro no propiciatório para a expiação de seus próprios pecados e os de sua casa. Aspergia também o sangue de um bode em favor da nação. Em seguida ele pegava um bode vivo, colocava as mãos sobre sua cabeça e confessava todas as iniquidades do povo. Depois disto, o enviava ao deserto, numa alegoria, como lugar de pecado e de morte.

Neste contexto a salvação estava confinada ao templo, dentro das paredes da cidade santa. O povo compreendia a salvação como um benefício: uma liberação contínua da ira de Deus. Com os sacrifícios dos animais, o povo tornava-se íntegro e mantinha a comunhão com o Criador.

Com a morte de Jesus houve uma importante e fundamental mudança no local da salvação. Ele foi movido do centro (cidade santa) para a periferia (fora da cidade santa). Jesus morreu fora da cidade santa, no “deserto”, entre os rejeitados e excluídos. O lugar sujo e poluído tornou-se santo quando Jesus tomou sobre si a função do templo.

O fato de Jesus ter efetuado a salvação fora da cidade santa não quer dizer que temos agora, um novo e fixo local central de salvação. Ao contrário de fixo (estático) este centro é móvel na periferia. Em todos os lugares onde Cristo é o Senhor, se tornou um lugar de Salvação.

Um entendimento mais amplo da Missão

Com a mudança do local central da salvação também veio a mudança do entendimento.

O conceito de salvação foi visto em uma perspectiva mais ampla. Já não era mais compreendido somente como um benefício. O foco agora estava no compromisso para uma vida de serviço. Jesus morreu “para santificar as pessoas, isto é, para separá-las para o ministério”.

Este ministério é descrito pelo escritor como a confissão do nome de Jesus pela maneira de compartilhar os bens materiais com os pobres e oprimidos e trabalhar para seu bem estar.

Por meio de Jesus, pois, ofereçamos a Deus, sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome. Não negligencieis, igualmente, a prática do bem e a mútua cooperação; pois, com tais sacrifícios, Deus se compraz” (Hb 13:15-16).

Salvação significa, em outras palavras, liberdade para confessar Jesus Cristo através do serviço a desconhecidos.

É fato, no entanto, que durante toda a história da igreja os cristãos têm tido grande dificuldade em aceitar este ensinamento. Como seus antepassados, estão envolvidos com os diversos elementos do antigo Israel.

Este povo foi salvo da escravidão a fim de ser sacerdote de Deus entre as nações. Em vez disto, se tornou uma comunidade exclusivista que valorizava mais sua eleição como um privilégio nacional do que um chamado para servir ao mundo.

Em semelhança, muitos cristãos têm interpretado a salvação de Deus através de Jesus Cristo, mais como um bem particular, um privilégio pessoal, do que uma liberdade para o serviço. Como resultado a igreja tem-se tornado uma comunidade exclusivista, um “clube de salvos”.

Ao contrário do pensamento popular, Cristandade não é a soma total dos cristãos no mundo. É um “projeto histórico” que adota várias formas e aspectos desde o momento que foi introduzido no Edito de Milão (313 d.C.), quando Constantino fez do Cristianismo a religião do estado.

Seja qual for a sua forma (católica, metodista, batista, etc), Cristandade é a visão de uma sociedade organizada em torno dos princípios e dos valores Cristãos sendo a igreja o seu gerente ou mentor. Nela os povos são divididos entre os “de dentro” e os “de fora”. Os “de dentro” são aqueles que vivem dentro dos compostos da igreja. Os “de fora” os que não vivem.

O problema com a Cristandade não se encontra com a sociedade como está, mas com a igreja. Como “um projeto histórico”, a Cristandade domina a estrutura mental da igreja, fazendo com que a igreja enxergue a sociedade como uma extensão de si mesma, e sua vida interior como uma reflexão de sua cultura.

Jesus morreu “fora da porta”, fora do composto religioso, fora do conforto e da segurança da comunidade redimida. Ele nos mostrou que a salvação está ao alcance de todos, independentemente do projeto histórico (denominações). Por isto, devemos entender e por em prática uma expressão tão bem conhecida por todos: “Não somos os únicos, mas unicamente discípulos”.

Jesus ampliou corretamente o conceito de salvação: além de benefício e privilégio, também é compromisso e serviço. Ser salvo pela fé em Cristo é ir a Jesus onde Ele morreu para o mundo e deu Sua vida pela sua salvação. Ser salvo pela fé em Cristo é encarregar a si mesmo daqueles por quem Ele sofreu.

A Salvação encontra-se fora das portas das paredes cultural, ideológica, política e socioeconômicas que cercam a nossa posição religiosa e dão forma às estruturas da Cristandade. A Salvação não é somente uma passagem para um ponto privilegiado no universo de Deus, mas é também a liberdade para o serviço.

Jesus disse em Mateus 16:24 e 25: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á”.

Um entendimento completo da missão

A morte de Jesus fora da porta também implica em um entendimento completo da missão. No Antigo Testamento, pensava-se que a missão de Israel era se mostrar para as nações. Ela era o centro do mundo (Ez 5:5) e Jerusalém sua montanha santa (Sl 2:6): o lugar onde as nações deveriam ir para serem salvas (Mq 4: l ). A missão de Israel era ser o sacerdote de Jeová na montanha santa (Ex 19:6).

As nações deveriam vir ao Monte Sião para aprender de Israel os caminhos de Jeová. Como proclamou o profeta Miquéias:

“Mas, nos últimos dias, acontecerá que o monte da Casa do SENHOR será estabelecido no cimo dos montes e se elevará sobre os outeiros, e para ele afluirão os povos. Irão muitas nações e dirão: Vinde, e subamos ao monte do SENHOR e à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine os seus caminhos, e andemos pelas suas veredas; porque de Sião procederá a lei, e a palavra do SENHOR, de Jerusalém.” (Mq 4:1-2).

O fato dos habitantes de Israel e Judá terem sido aprisionados e dispersados para todas as nações não mudou esta autocompreensão. Da Babilônia, longe do monte Sião, fora dos limites da cidade santa, um remanescente fiel manteve sua visão escatológica viva. Ele continuou a sonhar com a terra prometida e a aprimorar sua autocompreensão missionária. No tempo apropriado alguns de seus representantes voltaram e reconstruíram o templo.

Aqueles que permaneceram no exílio continuaram a meditar na lei dentro das sinagogas, que tinham sido construídas provisoriamente como substitutas para o templo. Tendo construído casas, plantado jardins, adquirido esposas (Jr 29:5-6), estabeleceram-se permanentemente no exílio, mas ano após ano faziam uma peregrinação a Jerusalém. Seu modo de vida justo permitiu a eles testemunhar aos seus vizinhos sobre Jeová. Alguns deles tornaram-se seguidores do Deus de Abraão, Isaque e Jacó.

Entretanto, tais conversões foram interpretadas nos termos da proselitização: significava que os gentios tornaram-se judeus e esperava que fizessem peregrinações a Jerusalém. Os convertidos se tornaram em um sinal do reino messiânico definitivo quando as nações vieram ao Monte Sião para aprender de Israel os caminhos de Jeová.

Então missão, mesmo na dispersão, continuou a ser compreendida principalmente como trazer a periferia (os que estavam fora da cidade santa) para o centro (para a cidade santa).

Mas a morte de Jesus não somente mudou a localização da salvação, mas também clarificou a natureza da sua missão.  A missão do povo de Deus foi completamente alterada com a mudança da salvação para periferia.

A missão não é mais o “vir”, mas o “ir”. Não é só receber, mas dar.

Isaías (19:23-25) já havia profetizado que haveria um tempo que os judeus adorariam a Deus junto com os assírios e egípcios. E que esta adoração poderia ser em Israel, no Egito ou na Assíria.

Testemunhar a graça salvadora de Deus significa ir até o Filho crucificado de Deus, fora da porta de nossa estrutura sagrada, para participar do sofrimento de Sua morte pelo mundo.

“Saiamos, pois, a ele, fora do arraial, levando o seu vitupério”. (Hb 13:13).

Salvação é para ser focada sobre aquela pessoa que tem assumido a identidade eterna dos “de fora”. Ou seja, aquelas pessoas que vivem para servir a Cristo. Que vivem com a consciência que as pessoas perdidas (os de fora) são suas responsabilidades.

Conhecemos a Jesus como o Filho crucificado de Deus, sofrendo e morrendo pelo mundo no meio dos rejeitados e excluídos. Desde que Jesus morreu fora da porta a missão tem significado atravessar as portas de nossas seguras e confortáveis estruturas religiosas, em um movimento contínuo em direção a Ele, para suportar o “abuso que Ele sofreu” pelo mundo.

É neste movimento contínuo em direção à cruz de Cristo, quando nos identificamos com Ele e a Sua causa, participando de seu sofrimento de morte fora e pelos “de fora”, que podemos ser autênticas testemunhas da graça salvadora de Deus.

A missão da igreja é centrifugadora, ou seja, vai do centro para a periferia levando o evangelho aos rejeitados e excluídos. Assim podemos exaltá-Lo e permitir que homens e mulheres sejam atraídos à Ele (Jo 12:32).

Se a missão cristã significa encontrar o Cristo crucificado e participar em seu sofrimento pelos rejeitados e excluídos, então sucede que todos os seus aspectos tradicionais devem ser interpretados da perspectiva da periferia. A implantação e o crescimento da igreja não deve ser pensado em termos de edificações sagradas, mas comunidades peregrinas, como Abraão que viveu em tendas que se moviam de tempos em tempos.

“Pela fé, peregrinou na terra da promessa como em terra alheia, habitando em tendas com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa” (Hb 11:9).

A igreja deveria ser uma “Paroikia” (moradia temporária, uma tenda no deserto) e não um forte ou castelo isolado.

Lendo a primeira carta do Apóstolo Pedro (1.17 e 2.11) entendemos que a “paroikia” é uma comunidade de peregrinos e forasteiros que enfrentam a sua adaptação ao mundo em que vivem.

A “diakonia” ou o ministério de serviços deve ser compreendido nos termos da divisão de posses e no modo de vida justo.

“Seja constante o amor fraternal. Não negligencieis a hospitalidade, pois alguns, praticando-a,

sem o saber acolheram anjos. Lembrai-vos dos encarcerados, como se presos com eles; dos que sofrem maus tratos, como se, com efeito, vós mesmos em pessoa fôsseis os maltratados. Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula; porque Deus julgará os impuros e adúlteros. Seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as coisas que tendes; porque ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei”  (Hb 13:1-5).

Como adoração, devemos ser uma celebração viva do nome de Cristo no decorrer da nossa vida e não um religioso sem compromisso que conforta e consola a própria consciência.

Só podemos oferecer sacrifícios de louvor a Deus e confessar o nome de Cristo se estivermos nos movendo em direção à Ele “fora da porta”, se formos peregrinos, se vivermos justamente e se compartilharmos nossas posses com os necessitados.

Adoração, evangelismo e serviço têm valor Cristão se forem feitos “fora”, em solidariedade com Jesus crucificado e Seu permanente compromisso com os rejeitados e excluídos.

Conclusão: Um novo objetivo de Salvação e Missão

A morte de Jesus fora da porta implica assim, num novo lugar de salvação e em um entendimento mais amplo da missão. Entretanto, nem a salvação nem a missão é um fim em si mesmo. O contexto desta passagem sugere uma terceira implicação da morte de Jesus: um novo objetivo da salvação e da missão.

A falha de muitos israelitas, refletida nos debates teológicos encontrados no Antigo Testamento, é que Israel cresceu demasiadamente envolvida em si mesma, perdendo a visão sobre sua missão universal. De certa forma, o chamado dos judeus não prevaleceu: “em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12:3).

A bondade de Deus foi interpretada de maneira egoísta. Deveriam ser um exemplo digno de justiça, liberdade e de bem estar e assim ser uma testemunha fiel às nações. Todavia a classe governante de Israel copiou cegamente os caminhos equivocados deixado por seus antecessores, tornado-se como eles.

Israel estimava muito a sua posição espiritual, exceto quando estava em escravidão e em cativeiro.

Mas quanto mais Deus dava a eles de Sua bondade, mais eles procuravam “privatizar” a Deus e menos lembravam da promessa universal de salvação de Deus. Israel se viu como um “fim” e não como um “meio”.

Atualmente, existem muitos cristãos, corpos eclesiásticos e organizações missionárias que tendem a pensar no lado “de fora” como o fim. Tendem a enfocar sua liberdade para o serviço e seu caminhar com Cristo, sua solidariedade pelo sofrimento dos excluídos, como o último objetivo de sua vocação cristã. Fazendo isto se tornam peregrinos sem destino, profetas sem visão, testemunhas sem esperança.

O encorajamento a tal ativismo certamente não é a intenção do escritor. Seguramente a exortação a mover-se para fora e participar no sofrimento do filho crucificado de Deus é fundamentada na visão da cidade que está por vir “Na verdade, não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a que há de vir” (Hb 13:14), cujo construtor e criador é Deus “porque aguardava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador” (Hb 11: 10).

A periferia, o deserto, o mundo de pecado e maldade, de sofrimento e injustiça não é visto como uma habitação permanente. Sendo assim, o serviço é um ponto de confirmação no caminho para a nova Jerusalém, símbolo da nova criação: a transformação definitiva do mundo pelo poder de Deus.

Salvação e missão sem a nova Jerusalém caminham para um fim improdutivo. Eles giram em torno de práticas sócio-religiosas, esgotadas por seu imediatismo e impotentes frente ao futuro.

A morte de Jesus tornou possível para o homem, ser livre do poder do pecado e da morte, podendo então olhar adiante para um mundo inteiramente novo e conseqüentemente trabalhar no “deserto” sem medo e intimidação, sabendo que no fim o deserto se tornará no jardim de Deus e a cidade desobediente e profana será renovada pelo poder do Deus vivo.

Já não podemos ver a graça salvadora de Deus como um benefício individual, um privilégio ou uma omissão religiosa que me permita sentir bem e continuar a viver à velha maneira porque minha consciência pesada e meus sentimentos de culpa foram retirados.

Ao contrário, a salvação deve ser encontrada no filho crucificado de Deus que morreu “fora da porta” da estrutura religiosa. Ser salvo pela fé nEle é experimentar uma transformação radical que me faça ser um “devedor” ao mundo (Rm 1:14) e me chamar adiante para compartilhar em seu sofrimento servindo, especialmente, a seus representantes mais baixos: os pobres, os fracos e oprimidos.

Nem somos permitidos a usar a causa do evangelismo para construir estruturas eclesiásticas que isolam os cristãos das necessidades da vida e os impedem de seguir completamente a sua chamada de pegar a sua cruz, negar a si mesmo e seguir a Jesus no decorrer de suas vidas.

A cruz não é o fim de Jesus. A cruz não é a última palavra de Deus. Jesus não somente morreu, mas levantou-se dos mortos e ainda virá adiante da nova criação cheio de glória e majestade. É a ressurreição e a nova criação que constituem nas últimas e definitivas palavras de Deus. Elas validam a cruz como um decisivo e necessário ponto de confirmação nos planos de Deus para criar uma nova terra e um novo céu.

Não nos deixemos tornar membros da estrutura religiosa da cristandade, pelo contrário, devemos nos transformar em agentes apostólicos na mobilização de uma igreja servil, em direção ao seu Senhor, crucificado “fora da porta” de uma estrutura eclesiástica confortável e segura. Somos salvos do poder do egoísmo e da decadência e somos exortados a nos mover em uma missão fora do conforto e da segurança de nossas estruturas eclesiásticas. Somos salvos para que possamos servir ao mundo.

Devemos ser profetas da esperança em um mundo de desilusões e de falsos sonhos, avançando para a cidade de Deus, o mundo da verdadeira justiça e da paz real, do amor verdadeiro e da liberdade autêntica. Amém