Tributo a João Batista

Iran Bernardes da Costa

“Houve um homem enviado por Deus, cujo nome era João” (Jo 1:6).

O autor desse Evangelho referia-se a João Batista. Aquele de quem os antigos profetas falaram como sendo “uma voz que clama no deserto”. O filho de Zacarias e Isabel, que nasceu como resposta à oração dos seus pais (Lc 1:5-23).

 “Houve um homem”.  O homem é o método de Deus. A Bíblia não dá outro plano. Enquanto a igreja procura melhores prédios e facilidades para conseguir o aperfeiçoamento de seus membros e disseminar o Evangelho por todo o mundo, Deus procura por melhores homens (E.M. Bounds).

Através dos séculos este tem sido o plano de Deus. Sempre que deseja fazer alguma coisa importante no seu Reino Ele escolhe um homem, equipa-o e prepara-o para tal tarefa; coloca-o como cabeça sobre o seu povo e determina ao povo que o sigam e obedeçam. Foi assim que os profetas foram levantados como grandes e poderosos líderes, os quais tendo captado a visão de Deus, passaram-na a outros e realizaram o propósito de Deus. Deus nunca estabeleceu outro plano. Ele sempre escolheu e comissionou homens.

Quase toda a história bíblica está ligada a homens – seu nascimento, sua chamada, seu trabalho, suas lutas, seu sucesso e seus reveses; o que eles fizeram e ensinaram, e, finalmente, sua morte. Biografias ocupam grande parte das Escrituras. O livro de Hebreus traz uma fascinante lista de heróis da fé, “homens dos quais o mundo não era digno” (Hb 11).

Quando Deus desejou um companheiro semelhante a Ele, tomou a decisão, dizendo, “Façamos o homem” (Gn 1:26). Quando Deus sentiu a necessidade de estabelecer uma nação ele escolheu Abraão. Quando precisou de um administrador para preservar aquela nação, escolheu José. Quando precisou de libertador, escolheu Moisés. Quando veio a necessidade de um profeta para “converter o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos aos pais”  ele levantou Elias, e mais tarde, João Batista (Ml 4:5,6; Lc 1:5-23).

Jesus dá testemunho de João

João Batista foi um homem que recebeu do Senhor Jesus o maior tributo de honra que um mortal poderia receber. Em Mateus 11:11-19 Jesus dá testemunho de João em termos efusivos.

Jesus, ao ver a multidão saindo ao deserto para estar com o profeta, faz uma intrigante e insistente pergunta: “Que saístes a ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento?”

Será o que Jesus queria dizer com esta expressão “caniço agitado pelo vento”?

Vejamos:

Às margens do Rio Jordão crescia um tipo de capim que dava uma cana de uns dois a três metros de altura. O vento soprando contra a cana, a levava de um lado para outro, num processo de oscilação o tempo todo. Daí surgiu a expressão “caniço agitado pelo vento”, para designar as pessoas inconstantes e os movimentos passageiros que surgiam no meio da sociedade e no meio religioso.

Assim Jesus indagava ironicamente: “Saístes a ver um inconstante? Um fraco vacilante? Um fogo de palha?” A resposta obvia era, “não”.  Certamente o povo não se juntaria em multidão no deserto para ver um homem desqualificado. João Batista não foi do tipo que se conduz de acordo com o soprar dos ventos, das circunstâncias.

Jesus continua a perguntar: “Sim, que saístes a ver? Um homem de roupas finas?” O Senhor explica: “Os que vestem roupas finas assistem nos palácios reais” (Mt 11:8). Jesus estava dizendo que João não era um freqüentador de palácios e não participava das mordomias nem dos conchaves das autoridades. Jesus está dizendo que João não era comprometido com o poder político nem tomava parte com a classe dominante. João ocupava o perigoso ofício de falar a verdade de Deus aos reis e ao povo. Ele era um embaixador de Deus e não um amigo de reis.

Jesus insiste.

Mas para que saístes? Para ver um profeta? Sim, eu vos digo, e muito mais que profeta. Este é de quem está escrito: Eis aí envio diante da tua face o meu mensageiro, o qual preparará o meu caminho diante de ti. Em verdade vos digo: Entre os nascidos de mulher, ninguém apareceu maior do que João Batista; mas o menor no reino dos céus é maior do que ele. (Mt 11:9-11).

Eis o tributo de Jesus a um homem! Mais que profeta. Maior do que todos os nascidos de mulher.

Profeta é aquele que proclama a verdade de Deus. É um homem em quem Deus confia e que tem em si mesmo a Palavra de Deus encarnada. É um homem a quem Deus revela os seus segredos, como prometido em Jeremias 33:3.

O profeta reúne duas características principais. Ele é um homem com a mensagem de Deus, e, em segundo lugar, ele é um homem com a coragem de proclamar a mensagem de Deus.

Os judeus acreditavam que antes da vinda do Messias, o profeta Elias voltaria como arauto, anunciando a vinda do Senhor. Ainda hoje os judeus, quando celebram a páscoa, deixam na festa uma cadeira vaga para Elias. Com base em Malaquias 4:5 Jesus declarou que João era esse arauto de Deus anunciando a chegada do Filho do Homem. Por isso ele foi mais que profeta.

Nunca houve alguém como esse homem. Ele foi a maior figura humana de todos os tempos.

Será o que Jesus viu em João?

A esta altura surge uma indagação, Será o que Jesus viu em João, que tanto lhe trouxe admiração e respeito? Três características, pelo menos.

Humildade

A primeira marca de João que impressionou a Jesus foi a sua humildade.

No quarto evangelho, capítulo um, nós encontramos uma maravilhosa demonstração de humildade desse profeta. Os sacerdotes e levitas enviados de Jerusalém fizeram tudo para inflamar o orgulho dele, tentando-o para que usurpasse o lugar do Messias.

Os líderes judaicos enviaram de Jerusalém sacerdotes e auxiliares, para perguntar a João se ele tinha a pretensão de ser o Messias. Ele negou sem rodeios:

“Eu não sou o Cristo.”.

“Neste caso, quem é você?” Perguntaram eles. “Você é Elias?”

“Não.” Respondeu ele.

“Você é o profeta?”

“Não.”

“Então, quem é você? Diga-nos, para que possamos dar uma resposta àqueles que nos enviaram. Quem tem você a dizer de si mesmo?”

Ele respondeu: “Eu sou uma voz no árido deserto, clamando como profetizou Isaías: ‘Preparem-se para a vinda do Senhor. ’”.

Então aqueles que foram enviados pelos fariseus perguntaram-lhe: “Se você não é o Messias, nem Elias, nem o profeta, que direito tem de batizar?”

João lhes disse: “Eu simplesmente batizo com água, mas bem aqui no meio da multidão está alguém que vocês nunca conheceram, que breve começará seu ministério entre vocês, e eu não sou digno nem de ser escravo dele.”.

No dia seguinte João viu Jesus caminhando em sua direção e disse:

“Atenção! Lá está o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo! Era dele que eu estava falando quando disse: ‘Breve vai chegar um homem muito mais importante do que eu, o qual existia muito antes de mim! ’”

“Eu não sabia que era ele, porém estou aqui batizando com água a fim de mostrá-lo à nação de Israel. Mas na ocasião em que Deus me enviou a batizar, disse-me: ‘Quando você vir o Espírito Santo descer e pousar sobre alguém – esse é o que você está procurando. Ele é o que batiza com o Espírito Santo.’ Eu vi acontecer isto com este homem, e portanto testifico que ele é o Filho de Deus” (The Living New Testament).

Um dia alguém começou uma discussão entre os discípulos de João dizendo-lhe que o batismo de Jesus era melhor. Portanto eles vieram a João e lhe disseram:

“Mestre, o homem que o senhor encontrou no outro lado do Rio Jordão – aquele que o senhor disse que era o Messias – também está batizando, e todo mundo vai para lá, ao invés de vir para nós aqui.”

João respondeu:

“Deus no céu dá a cada homem o seu trabalho. Meu trabalho é preparar o caminho para aquele homem, para que todo o mundo vá a ele. Vocês mesmos sabem como eu lhes falei claramente que eu não era o Messias. Eu estou aqui para preparar o caminho para ele – isso é tudo.” .

“As multidões irão naturalmente atrás da atração principal – a noiva irá para onde o noivo está! Os amigos do noivo se alegram com ele. Eu sou amigo do noivo, e estou cheio de alegria com o êxito dele. Ele deve tornar-se cada vez maior, e eu devo diminuir cada vez mais” (Jo 3:25-30 ibid).

A maioria das pessoas procura grandes coisas e os primeiros lugares. Não foi assim com João Batista. Ele sabia muito bem que Deus lhe havia conferido um ministério em submissão. A consciência da importância e do valor da submissão nos previne contra muitos problemas de relacionamento, tais como ciúme, inveja, ressentimento, competição, etc. Seja qual for o trabalho que Deus nos confiar devemos aceitá-lo e fazê-lo de todo o coração. Realizar algum ministério em submissão é um grande trabalho. Para Deus toda obra tem o mesmo peso de valor e importância. Toda tarefa realizada para Deus é muito importante.

João Batista disse àqueles que o tentavam que “nenhum homem pode receber mais do que Deus lhe dá”. Ele tinha certeza de que se algum outro mestre estava atraindo mais discípulos do que ele era porque Deus lhe estava agraciando com tal sucesso.

Há muitos anos havia um certo pastor americano chamado Dr. Spence. Ele era muito popular e sua enorme igreja era sempre muito cheia. Então aconteceu que uma outra igreja vizinha, do outro lado da rua, havia convidado um novo pastor, o qual estava atraindo muita gente. Certa noite a igreja do Dr. Spence estava praticamente vazia. Então o Dr. Spence olhou para aqueles “gatos-pingados”, e exclamou: “Para onde teria ido todo esse povo?” Houve um silêncio constrangedor no meio deles; e, então, disse um dos seus auxiliares: “Eu creio que eles foram ouvir o novo pastor da igreja do outro lado da rua”. O Dr. Spence fez silêncio por alguns segundos, e em seguida esboçou um sorriso, e disse: “já que todo mundo foi para lá, penso que é melhor irmos também.”. E, descendo da plataforma, conduziu os presentes até aquela igreja vizinha.

Quanto sofrimento, quanto ciúme e inveja amargurada e sentimento faccioso poderíamos evitar se nós tivéssemos a consciência de que o sucesso dos outros é uma graça de Deus a eles concedida.

João Batista disse que seu trabalho era promover o encontro da noiva com o noivo. Ele era apenas amigo do noivo e de forma nenhuma pretendia praticar a tão famosa usurpação. “Ele não julgou como usurpação o ser igual a Jesus”. Ele não queria tirar proveitos para si da situação. O que queria era promover a alegria do noivo.

É uma coisa tremenda quando nós temos a consciência de que não estamos preparando uma noiva para nós mesmos, mas para Ele. Que não estamos atraindo pessoas para nós, mas para o Senhor Jesus.

Transparência

Em segundo lugar o que impressionou a Jesus no caráter de João Batista foi a sua transparência.

João Batista não podia “amaciar” nem “açucarar demais” a mensagem para seus ouvintes. Isto lhe custou a prisão e a morte, em seguida.

No cárcere enfrentou sérias dificuldades, até de ordem existencial como nos revela o texto de Mateus 11: 2-5:

“Quando João ouviu, no cárcere, falar das obras de Cristo mandou por seus discípulos perguntar-lhe: És tu aquele que estava para vir, ou havemos de esperar outro?”

Jesus respondeu-lhes:

“Ide, anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho”.

Nesta passagem João manifesta um aspecto do seu caráter que impressiona tremendamente a Jesus. Ao invés de ver em João uma atitude negativa de incredulidade, Jesus viu nele total sinceridade e transparência.

Nos momentos de solidão e abandono, longe das multidões e do sucesso, João foi cruelmente visitado pela dúvida atroz. Até que não suportando mais tal peso, resolveu mandar seus discípulos perguntar a Jesus se ele era mesmo o Messias ou não. Que momento difícil para alguém que já havia visto tantos sinais de que Jesus era o filho de Deus, como por exemplo:

“No dia seguinte, viu João a Jesus que vinha para ele, e disse: Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!” (João 1: 29).

“E João testemunhou dizendo: Vi o Espírito descer do céu como pomba e pousar sobre ele” (Jo 1: 32).

Como, agora, mandar perguntar se ele era o Messias. Dilema! “Se eu perguntar vou acabar revelando minha fraqueza e, assim posso perder meu prestígio de profeta”. Líder não mostra suas fraquezas! Se não pergunto, sou consumido pela dúvida!

Então aquele homem decide perguntar – seja lá o que Deus quiser. “Vão lá e perguntem se Ele é mesmo o Cristo?”

Momentos de agonia até que eles voltem com a resposta. De repente chegam com uma tremenda euforia:

“Mestre, Mestre! Ele mandou dizer que os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho”.

Sabem o que significa a resposta de Jesus? Ele estava respondendo:

“João, não importa o tamanho da tua dúvida; importa o tamanho da tua sinceridade. Não importa o tamanho da tua fé em Deus, mas o tamanho do Deus da tua fé”.

Creio mesmo, que Jesus estava dizendo:

“João, você cumpriu fiel e eficazmente a sua missão de preparar o caminho para mim. Agora, que eu inaugurei a minha missão, estou vendo o quanto foi importante Deus tê-lo enviado à minha frente como precursor. Agora ficou tudo mais fácil. Olha, João, se você não tivesse dado aquelas mensagens que o povo achava que eram duras demais, o povo não estaria agora tão receptivo para a mensagem que estou pregando e para os sinais que Deus está operando”.

Ministério

A terceira marca do caráter de João que chamou a atenção de Jesus foi o seu ministério.

O Velho Testamento termina com a profecia sobre o advento do “Sol da Justiça”, Jesus, o precursor de João Batista. Essa profecia antecipa que o ministério de João teria o mesmo perfil do de Elias:

Eis que eu vos envio o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor; ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais; para eu não venha e fira a terra com maldição.” (Malaquias 4:5, 6).

Quando Zacarias prevalecia no lugar secreto, na presença de Deus, o anjo do Senhor lhe apareceu e disse:

“Pois ele (João) será grande diante do Senhor, não beberá vinho nem bebida forte, será cheio do Espírito Santo, já do ventre materno. E converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus. E irá adiante dele no espírito e poder de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos, converter os desobedientes à prudência dos justos e habilitar para o Senhor um povo preparado.” (Lc 1:15-17).

Destes textos nós vemos que o ministério de João Batista teve um aspecto essencialmente voltado para a restauração da família. Dois fortes anseios ficam aqui demonstrados no coração do profeta, ou seja, salvar as famílias e poupar a terra, das maldições. Quais maldições?

As maldições estão referidas em Deuteronômio 28:

“Desposar-te-ás com uma mulher, porém outro homem dormirá com ela; edificarás casa, porém, não morarás nela; plantarás vinha, porém não a desfrutarás… Teus filhos serão dados a outro povo; os teus olhos o verão e desfalecerão de saudades todo o dia; porém a tua mão nada poderá fazer” (vv. 30-32).

João Batista veio no poder e no espírito de Elias. De tempos em tempos Deus levanta homens com ministérios semelhantes para atender a necessidades semelhantes. Elias foi um profeta reformador que denunciava o pecado de reis e poderosos; de grandes e pequenos; e por isso ele foi chamado de “Perturbador de Israel” (1Rs 18:17); e “inimigo meu” (1Rs 21:20), pelo rei Acabe.

Por sua mensagem e pela coragem de entregar tal mensagem, Elias foi honrado por Deus, ao ser recebido nas alturas, numa carruagem de fogo (2Rs 2:11).

Também João Batista foi o maior dos profetas reformadores. Denunciou o sexo ilícito, como a prostituição, a fornicação, o estupro, o homossexualismo e o incesto. Foi homem de coragem, e por isso foi decapitado.

Conclusão

João está de volta! Deus tem levantado nestas duas últimas décadas o mesmo ministério. A história se repete. Deus continua levantando homens e mulheres para a grande tarefa de “abençoar todas as famílias da terra”.

Neste tempo escatológico, quando o coração de Deus grita por “um homem que tape o muro e se coloque na brecha perante ele a favor desta terra, para que Ele não a destrua”. Ele tem levantado em todo o mundo, novos João Batista.

Estamos fazendo a História ainda. Certamente haveremos de fazer parte da lista dos heróis da fé. O livro dos atos de Deus ainda não foi selado. Alguém está registrando nossos atos. Um dia, em algum lugar do universo, alguém haverá de ler nos registros de Deus:

“Houve um homem, enviado por Deus, cujo nome era…”.