É comum, quando vamos falar ou escrever sobre algum tema cristão, procurar exemplos e palavras de grandes personagens bíblicos, aqueles que se destacaram e tem seus nomes registrados pelos seus exemplos e pelas suas obras. O livro de Atos, que registra o início da igreja e a continuidade do evangelho, destaca dois grandes personagens que contribuíram de maneira significativa para a expansão do evangelho e crescimento da Igreja. Pedro e Paulo são apóstolos lembrados constantemente por nós. Eles foram as colunas da igreja nos seus primeiros dias de existência. Quando falamos de Pedro, lembramos-nos da sua pregação no dia de Pentecostes e a conversão de mais de três mil pessoas. Paulo, esse gigante do evangelho, é lembrado pelas suas viagens missionárias e pelas suas cartas que enriqueceram o Novo Testamento. Esses dois apóstolos, com sua proeminência no livro de Atos, quase nos deixam passar sem notarmos um personagem, que por sua característica de acreditar nas pessoas, foi apelidado de encorajador ou filho do encorajamento, esse é o significado de Barnabé.

Alguns registros em Atos nos mostram porque Barnabé ficou conhecido como encorajador. Nós destacaremos três episódios narrados por Lucas, nos quais Barnabé justifica o apelido que recebeu dos apóstolos. O primeiro diz respeito a sua pessoa, suas virtudes e características relacionadas com o encorajamento. O segundo episódio mostra sua coragem e ousadia ao introduzir Paulo à igreja em Jerusalém, quando ninguém acreditava que Paulo havia de fato se convertido, pelo contrário, todos o viam como verdadeira ameaça à liberdade da igreja.  O outro episódio diz respeito a sua visão de fé e confiança, ao deixar a equipe missionária, e optar em investir em seu sobrinho João Marcos que havia abandonado a equipe na primeira viagem missionária. Você já parou para pensar sobre a importância da vida de Barnabé para a expansão do evangelho, observando esses episódios? Paulo tornou-se o apóstolo dos gentios, e João Marcos escreve o primeiro evangelho, que recebe o seu nome.

Nessa ministração, nós voltaremos nossas mentes e corações para a vida de Barnabé, a fim de aprender a tornar-se um encorajador como ele foi, e fazer do encorajamento uma prática da esperança.

Encorajamento tem a ver com quem você é

Quem foi Barnabé?

José, um levita de Chipre a quem os apóstolos deram o nome de Barnabé, que significa encorajador, vendeu um campo que possuía, trouxe o dinheiro e o colocou aos pés dos apóstolos (At 4.36-37).

Os cristãos da igreja primitiva provavelmente desenvolveram o hábito de encorajar uns aos outros, no entanto, os apóstolos apelidaram José da cidade de Chipre de filho do encorajamento ou encorajador. Por que será que somente ele recebeu esse apelido? Certamente essa caracteristica em Barnabé era exuberante, abundante.  No primeiro registro em que encontramos o seu nome, um evento que descreve mordomia e compartilhamento, Barnabé vende uma propriedade e entrega o produto à igreja a fim de suprir os pobres e viúvas. Lucas contrasta este ato de generosidade e a inspiração que ele traz à igreja, com a falta de compromisso e desonestidade do casal Ananias e Safira. A atitude deste casal demonstra o perigo de tentar manipular o Espírito Santo. Com essa comparação, Lucas destaca a integridade de Barnabé. A vida pública dele era resultado da sua motivação em servir a Deus e às pessoas. Encorajamento requer integridade, pois se nós desejamos de fato encorajar nossos irmãos e irmãs, precisamos confiar na oração e no Espírito Santo, e ao mesmo tempo, nós devemos ser confiáveis. Isto quer dizer que encorajamento não pode ser algo feito superficialmente, apenas para ser notado pelas pessoas. A qualidade de integridade demandada pelo encorajamento requer dependência do Espírito Santo e comprometimento com Cristo e uns com os outros.

Outra característica que encontramos em Barnabé é a humildade. Barnabé quando enviado para Antioquia, demonstra sua humildade sob dois aspectos: reconhecendo os seus dons para abençoar aquela igreja; e reconhecendo suas limitaçãos, quando ele busca Paulo, em Tarso, para ajudá-lo nessa tarefa, como companheiro e parceiro de ministério (At 11.22–26). Barnabé demonstra também sua humildade, quando ele e Paulo foram comissionados pelo Espírito Santo para a primeira viagem missionária. Barnabé iniciou a missão como líder, pois seu nome vinha a frente do de Paulo. Durante a viagem, ele cede a liderança, após Paulo tomar a frente em algumas situações; então Lucas reconhece essa liderança e inverte a ordem, colocando o nome de Paulo a frente do de Barnabé (At 13.9–42). Encorajamento demanda de nós um verdadeiro senso de humildade, tanto em relação aos dons e qualidades que o Senhor nos concedeu, como também das nossas limitações. Muitas vezes começaremos como líder, mas Deus pode designar aqueles que nós lideramos e preparamos para ir além; então nós faremos como Barnabé fez com Paulo, e falaremos como João Batista: “Importa que ele cresça e que eu diminua.”

É bom lembrar que humildade não é falsa modéstia que evita reconhecer os próprios dons, e a utilidade deles para abençoar e servir a igreja. Isso na verdade é evitar a responsabilidade. A verdadeira humildade nos ajuda a reconhecer o nosso chamado e os dons que Deus nos deu. A humildade nos mantém em nosso lugar, ajudando-nos a identificar as armadilhas da vaidade e a guardar o nosso coração da arrogância. A humildade nos chama a fazer melhor uso do que o Senhor nos tem dado. É essencial no encorajamento, pois ela nos dá a empatia para ajudar os outros em suas lutas para discernir os dons e chamado de Deus para a vida deles. A humildade dá autenticidade ao encorajamento. Foi essa humildade que autenticou o ministério de Barnabé como o filho do encorajamento.

Barnabé, como encorajador, apresenta também a habilidade para lidar com conflitos e aceitação da vulnerabilidade diante desses conflitos. Em Atos nós podemos encontrar alguns episódios em que conflitos tornaram-se oportunidades para a realização e crescimento do ministério. Em um desses conflitos, Barnabé queria levar João Marcos para visitar às igrejas fundadas na primeira viagem missionária.  Paulo não aceitou, pois João Marcos abandonou a equipe. A demanda foi tanta que dividiu a equipe. Barnabé decidiu encorajar e dar mais uma chance a João Marcos.  Talvez para Barnabé, fosse mais fácil seguir com Paulo, mas ele deixa o seu conforto e escolhe investir na vida do seu sobrinho. Quando nós encorajamos as pessoas, nós estamos de maneira criativa, ajudando-as a encontrar novos caminhos para viver e realizar o ministério e o chamado de Deus para a vida delas. O encorajamento confronta as pessoas em sua zona de conforto, produz mudanças que por sua vez podem gerar conflitos. O encorajador enfrentará esses conflitos buscando sempre a conciliação, ele muitas vezes se tornará vulnerável as circunstâncias, mas a sua atitude pacífica e conciliadora produzirá frutos permanentes para a glória de Deus, como veremos mais a frente na vida de Barnabé.

Não era mera coincidência a reputação de Barnabé entre os cristãos e os apóstolos. Sua integridade, humildade, a habilidade de lidar com as diversas situações de conflito, juntamente com outras virtudes, fizeram desse discípulo alguém especial, conhecido como encorajador, pois encorajamento tem a ver com quem nós somos. Não podemos influenciar pessoas se nossas palavras não correspondem às nossas atitudes e ações.  Barnabé se destaca e atrai a atenção de Lucas, que registra em Atos, episódios marcantes que justificam o motivo do seu apelido.

Encorajamento ousa arriscar a reputação em benefício do outro

E, quando Saulo chegou a Jerusalém, procurava ajuntar-se aos discípulos, mas todos o temiam, não crendo que fosse discípulo. Então Barnabé, tomando-o consigo, o trouxe aos apóstolos, e lhes contou como no caminho ele vira ao Senhor e lhe falara, e como em Damasco falara ousadamente no nome de Jesus (At 9.26-27).

A comunidade cristã conhecia Saulo. Eu imagino que as imagens do apedrejamento de Estêvão eram parte da memória daquela comunidade, e eles conheciam bem quem havia autorizado tal atrocidade. Além disso, todos sabiam que Paulo não satisfeito apenas em perseguir e prender os cristãos de Jerusalém, ele também buscou autorização das autoridades religiosas e governamentais para perseguir, prender e até matar os cristãos em toda a parte. Não há dúvida que a comunidade deveria temer esse homem.

– Como? Saulo se converteu?—interroga Josias, um dos discípulos na igreja em Jerusalém.

– É, ele está dizendo que teve uma visão de Jesus. Ele agora se diz um discípulo de Jesus—responde seu primo, Samuel.

– Sei não, eu duvido que não seja mais uma estratégia para prender e matar os seguidores de Jesus—retruca Josias, demonstrando seu temor e desconfiança.

Talvez essa fosse uma das conversas nos círculos dos discípulos em Jerusalém quando ouviram falar da conversão de Paulo. Neste ponto, Barnabé faz a sua segunda aparição na história de Lucas. Será que Barnabé já conhecia a história da conversão de Paulo e os esforços dele em favor da obra de Cristo em Damasco? Ou é sua atitude um risco e ato de amável hospitalidade com a mudança ainda não provada de Paulo? Na verdade nós não sabemos, embora a segunda versão seja bem consistente com o caráter que conhecemos de Barnabé. De qualquer forma, nós vemos Barnabé assumir, como um advogado, o caso de Paulo.

Barnabé age com Paulo, da mesma maneira como Jesus falou que o Espírito Santo agiria conosco. Em João, Jesus promete o consolador, em outra tradução poderíamos dizer o encorajador, que é o significado da palavra grega “paracleto,” a mesma raiz que encontramos para a tradução do nome de Barnabé, “uiós parakleseus” (filho do encorajamento ou da consolação).

E eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador (encorajador), para que fique convosco para sempre (Jo 14.16). Consolador ou Encorajador—‘Parácleto’ no grego—quer dizer uma pessoa que fica ao lado de outrem, com o propósito de ajudá-lo em qualquer eventualidade, especialmente em processos judiciais. Era costume nos antigos tribunais, as partes comparecerem ante o Juiz assistidas por um dos seus mais íntimos amigos, que, no grego, eram chamados de “paracleto”, e em latim, “advocatus.” Esse “parácleto” ou advogado, assistia seus amigos, não por alguma recompensa, mas por amor e consideração. A missão do parácleto era a de oferecer ao amigo seus conselhos, conforto, segurança e defesa, por meio de sua intercessão. Orientava seus constituintes sobre o que deveriam dizer e como deveriam agir, falava por eles; representava-os; fazia da causa deles a sua própria causa.[1]

Essa foi a atitude de Barnabé. Como encorajador, Barnabé fez da causa de Paulo a sua própria, arriscou sua boa reputação adquirida entre os discípulos, e trouxe Paulo para os apóstolos e para o meio de toda a comunidade cristã.

Nesse episódio de integração de Paulo à comunidade cristã, nós vemos o encorajamento sob duas perspectivas. A primeira perspectiva é a da comunidade cristã, que tem medo de receber um novo convertido devido a sua má reputação. Barnabé encoraja os irmãos e irmãs através da sua integridade e reputação a receber o temido Paulo. Barnabé rompe a barreira do medo que impede e evita a criação de verdadeiros relacionamentos, e cria um ambiente de hospitalidade e aceitação indispensável para que os “de fora” se sintam confortáveis e benvindos. A outra perspectiva é a de Paulo, como novo convertido, ele é encorajado em sua fé a fazer parte dessa comunidade cristã, que embora “desconfiada,” é a comunidade daqueles que desejam servir a Cristo e o lugar onde a vida cristã deve ser desenvolvida. Quando Barnabé completa sua tarefa, Paulo, o inimigo dos cristãos,  é agora recebido e aceito como irmão. Esse é o papel do encorajamento, produzir esperança e novos relacionamentos. Além de aceito na comunidade cristã, Paulo é encorajado a continuar sua missão de pregar e testemunhar de Cristo, o que ele fez muito bem.

O Encorajador se levanta ao lado dos fracassados

Decorridos alguns dias, disse Paulo a Barnabé: Tornemos a visitar os irmãos por todas as cidades em que temos anunciado a palavra do Senhor, para ver como vão. Ora, Barnabé queria que levassem também a João, chamado Marcos. Mas a Paulo não parecia razoável que tomassem consigo aquele que desde a Panfília se tinha apartado deles e não os tinha acompanhado no trabalho. E houve entre eles tal desavença que se separaram um do outro, e Barnabé, levando consigo a Marcos, navegou para Chipre (At 15.36–39).

João Marcos acompanhou Barnabé e Paulo na primeira viagem missionária a Chipre. Ele era um jovem cristão que retornou para Antioquia com Barnabé e Paulo após entregarem a oferta para a igreja de Jerusalém. Em Chipre, João Marcos foi assistente na missão deles (At 13.3).  Ele estava junto quando Barnabé e Paulo encontraram o proconsul, Sergio Paulo, e o mágico Elimas. Até este momento, Barnabé liderava a missão, mas a partir de então, Paulo passa a ser o principal líder, e João Marcos testemunha essa mudança e exemplo de humildade do seu tio Barnabé. Marcos continua a viagem com os dois até uma próxima cidade, então, resolve retornar para Jerusalém, abandonando a missão.

Por que João Marcos abandonou a missão? Lucas não nos alimenta com os detalhes, apenas temos esse fato. Isso não impede que façamos algumas especulações: “Será que a viagem marítima, que naquela época apresentava muitos riscos e perigos, assustou o jovem cristão?” Ou “teria sido a mudança na liderança, o fator do abandono?” Barnabé parece ter um perfil mais brando, enquanto Paulo aparenta ser mais exigente. Ou “teria sido, simplesmente, o despreparo de um jovem para uma missão de tamanha importância?” Embora não tenhamos respostas, uma certeza fica, Paulo não esqueceu que João Marcos abandonou o grupo na primeira missão. Provavelmente ele acreditava que aquele jovem que os abandonou durante a missão não estava mais qualificado para realizar essa nova missão em nome de Cristo.

O desejo de Barnabé de levar consigo João Marcos, confronta a opinião de Paulo, e gera entre eles um grande problema. Barnabé tinha certeza que João Marcos estava preparado para essa nova missão; e Paulo, pensava justamente o contrário. Eu fico pensando o quanto Barnabé deve ter tentado convencer Paulo em incluir João Marcos na viagem.

– Paulo, lembra quando ninguém acreditava que você havia se convertido? Então, eu intercedi em seu favor, coloquei minha reputação a prova, e agora você está aqui, liderando a nossa missão—afirma Barnabé.

– Mas Barnabé, meu caso era diferente, eu não conhecia a Cristo, por isso persegui os cristãos, mas eu me converti. João Marcos, ele já era um cristão, e nos abandonou, demonstrando que ele não é hábil para ir até o fim.

– Paulo, eu acredito que nós deveríamos dar a ele uma segunda chance—replica Barnabé.

– De maneira nenhuma. Aquele que uma vez retrocede, não é digno de confiança—sentencia Paulo.

Embora Lucas não nos informe as razões do desejo de Barnabé levar João Marcos, a missão a partir desse episódio se divide. Parece que o fervor e zelo de Paulo pelo evangelho, naquele momento não permitiu espaço para novos fracassos. Ele prefere terminar a parceria com Barnabé mais do que se associar com um jovem cristão desertor, indigno de confiança. No entanto, Barnabé resolve investir na vida de João Marcos. O dom de encorajamento em Barnabé vê o invísivel, e o fim da história prova que foi importante dar uma segunda chance a alguém que quer ser um verdadeiro discípulo de Cristo. Esse pequeno episódio nos mostra que Deus habilita cada um de nós em áreas e dons diferentes a fim de promover o crescimento do Reino. Paulo, embora sendo um encorajador, como podemos ver em suas cartas, naquele específico momento e situação, preferiu seguir sem João Marcos, enquanto Barnabé escolheu investir um pouco mais na vida daquele jovem.

Assim, Barnabé seguiu uma nova jornada com João Marcos, e esse jovem se tornou alguém de grande influência na igreja. Ele escreveu o evangelho de Marcos, considerado o primeiro evangelho escrito, e base para os evangelhos de Mateus e Lucas. Com o tempo, a perspectiva de Paulo muda. Esperando sua sentença de morte, ele escreve para o seu discípulo Timóteo: Procura vir ter comigo depressa, porque Demas me desamparou, amando o presente século, e foi para Tessalônica, Crescente para Galácia, Tito para Dalmácia. Só Lucas está comigo. Toma Marcos, e traze-o contigo, porque me é muito útil para o ministério (2Tm 4.9–12). Abandonado por alguns companheiros, e outros tendo que seguir o chamado ministerial em outras áreas, o apóstolo Paulo reconhece a utilidade de João Marcos, e solicita sua presença junto a ele. O jovem que tinha sido rejeitado pelo apóstolo há diversos anos atrás, tornou-se um cooperador valoroso no ministério de Paulo.

Esse foi o trabalho de Barnabé, que com sua visão de fé e confiança habilita o enfraquecido e fracassado sobrinho, a tornar-se um honrado discípulo de Jesus e cooperador do evangelho. Além de possibilitar a João Marcos outra oportunidade para servir a Cristo, Barnabé, um verdadeiro encorajador, cria uma oportunidade para a reconciliação. Marcos e Paulo superam as diferenças e tornam-se companheiros de ministério, trabalhando lado a lado em favor do evangelho de Cristo. Isso nos leva a entender que Barnabé não guardou nenhum ressentimento de Paulo, pelo contrário, ele discipula João Marcos, constrói nele um espírito brando e perdoador, capacitando-o para a realização da obra de Cristo. Aqui reside a beleza do espírito do encorajador, que proporciona ao fracassado uma nova oportunidade e o habilita a perdoar aqueles que de alguma forma não acreditaram no seu potencial. Para o encorajador, não há causa perdida.

Conclusão

Encorajamento tem a ver com quem nós somos. Deus nos chamou em Cristo para uma nova vida, cheia da presença e poder do Espírito Santo, o Encorajador por excelência. Portanto, nosso chamado é para fazer o que o nosso Senhor faz, é para ser encorajadores, os filhos do encorajamento. Não estamos sozinhos, Jesus nos prometeu o seu Espírito, ele prometeu que estaria conosco, e é na dependência dele que faremos essa obra. Confiados nele, buscaremos viver uma vida de integridade e humildade, lidando de forma conciliadora diante das crises e conflitos.

O Senhor nos capacitará a quebrar as barreiras do medo do “novo,” o medo dos “diferentes,” daqueles que são vistos como “ameaça” para a comunidade cristã. O Senhor também nos ajudará a construir novos relacionamentos, conforme vimos quando Barnabé trouxe Paulo para o meio da comunidade cristã. Como verdadeiros encorajadores, nós também trabalharemos com os fracassados e rejeitados, fortalecendo-os e preparando-os para a reconciliação e restauração dos relacionamentos quebrados.

A história de João Marcos não foi a única história na Bíblia de alguém que recebeu uma segunda chance, pelo contrário, há muitos contos tanto no Velho como no Novo Testamento que falam de pessoas que fracassaram e tiveram uma nova oportunidade. Quem não lembra a história de Moisés após tornar-se um fugitivo por matar um Egípcio. Depois de quarenta anos no deserto, cuidando do rebanho do seu sogro, Deus aparece e lhe dá a oportunidade de tornar-se um grande legislador e libertador do povo de Israel. Temos também o caso de Davi, um pastor de ovelhas que se tornou rei, mas que infelizmente, pecou contra Deus e contra o seu próximo, cometendo adultério e homicídio. Qualquer pessoa que cometesse esses pecados deveria morrer, mas Deus deu a Davi uma nova oportunidade. A própria história do povo de Israel é uma história de oportunidades. Deus, com seu amor Hessed busca o povo que o rejeita em diversas situações. No entanto, o Senhor declara a sua aliança, em Jeremias: “Com amor eterno eu te amei, e com benignidade te atraí” (Jr 31.3).

Somente para citar um caso do Novo Testamento, vamos trazer a nossa memória a imagem daquela mulher, lembrada por Lucas apenas como “pecadora.” Ela “invade” a casa do fariseu a procura de Jesus. Ela se coloca atrás dele, aos seus pés. Ela chora e molha os pés dele com suas lágrimas, depois os enxuga com os seus cabelos, beija-os e os unge com perfume. Aquela mulher é sentenciada pelos convidados que estavam à mesa: “Se este homem fosse profeta, saberia quem está tocando nele e que tipo de mulher ela é: uma ‘pecadora’” (Lc 7.39–40). No entanto, aquela mulher “sem nome,” conhecida apenas de maneira pejorativa como “pecadora,” recebe uma nova oportunidade. Ela recebe uma palavra de conforto e encorajamento gerada pelo amor misericordioso do coração de Jesus: “Seus pecados estão perdoados… sua fé a salvou; vá em paz” (Lc 7.48,50). É dessa palavra que você precisa hoje? Então receba dos lábios do próprio Jesus: “vá em paz, filho…, vá em paz, filha… Os teus pecados estão perdoados.”

Talvez essas histórias lembrem a você “alguma coisa,” talvez elas lembrem o nosso começo e recomeços, as oportunidades que recebemos, e os diversos “Barnabés” que investiram e acreditaram em nós. Se você recebeu de Jesus uma palavra de encorajamento, então seja um encorajador, “agora é a sua vez.” Encorajar é o nosso chamado; a nossa missão é afirmar para aqueles que fracassaram: “esse não é o fim.” Como verdadeiros encorajadores, somos revestidos com o profundo amor Hessed do nosso Senhor, um amor que ainda que os outros falhem (esses outros podem ser nós mesmos), continuará a oferecer uma nova oportunidade.  Para esse amor, não há caso perdido.

“O amor… Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor nunca falha” (1Co 13.7-8a). Esse é o amor que inundou o coração de Barnabé, e inunda o coração do encorajador, aquele que faz do encorajamento a prática da esperança.

 

[1] Iran Bernardes da Costa. O Espírito Santo, Apostila do VIII Encontro Nacional (Brasília-DF, 2001).